Por Alline Nogueira Melo  

O prazer da criança está em transformar os objetos comuns em brinquedos. Essa oportunidade de criar através de algo que não está pronto, exige que a criança use todos seus potenciais. Ela aprende, transforma, inventa e algo inesperado acontece.  

Além dos objetos comuns, pessoas também podem se tornar brinquedos extremamente interessantes. Ter pessoas com quem possa conversar e interagir será sempre o melhor brinquedo para a criança, e ainda mais, esse será o brinquedo do qual ela mais poderá aprender. 

Brinquedos são desde os objetos comuns até os mais complexos. São os carrinhos, as bonecas, as bolas, as panelas, os brinquedos tecnológicos, os que se movem sozinhos, os que emitem sons e músicas, e aqueles com as interações mais incríveis possíveis. 

O brinquedo não é prejudicial à criança, o mau uso que se faz dele é prejudicial. 

A tecnologia nos fornece alternativas de obter informações valiosas virtualmente, conseguimos a resposta para perguntas complexas em apenas alguns segundos. O mesmo é oferecido para as crianças, elas definitivamente podem conhecer o mundo inteiro através de uma tela virtual. 

O brinquedo em si não é prejudicial à criança, ou a televisão, ou o celular e o tablet. Ao contrário, eles trazem muitas formas de interação e informações relevantes para a criança.   

Por um lado, isso é espetacular, pois fornece à todas as crianças do mundo, de diferentes classes sociais, a mesma oportunidade de acesso ao conhecimento e informação. Por outro lado, quando a criança não encontra outras referências, isso limita a experiência da criança à somente uma tela, onde ela não tem a experiência física de contato com os elementos da natureza, com as pessoas ao redor e com outras crianças. 

Os brinquedos se tornam destrutivos no momento em que impossibilitam que a criança faça outras coisas, quando privam a criança de interagir com as pessoas ao redor, quando se tornam substitutos de algo que poderia ser melhor e mais rico para a criança. Por exemplo, a criança que está em um momento de refeição com a família e assistindo algo no tablet ou televisão, é privada de observar as pessoas ao seu redor e ver como eles comem, como conversam, como essas pessoas sentem prazer ou não no momento da refeição. Ela viveu uma perda, pois não conseguiu observar aspectos do ambiente e das pessoas, e talvez não terá outro momento como esse para vivenciar (Série – O começo da vida). 

A criança pode assistir à um vídeo que mostra o que é uma praia, conhecendo através dele a areia e o mar, mas não viverá a experiência de tocar na areia experienciando sua textura, a experiência de sentir a temperatura da água do mar e seu sabor salgado, ou de sentir a brisa no rosto e o cheiro da maresia. São essas experiências sensoriais que trazem aprendizados, são ricas em conteúdo e informações, e só podem ser fornecidas à criança através da interação com outras pessoas, com pessoas reais de seu ambiente. Aprender em um mundo real é essencial para a criança. 

Existe um mundo inteiro de aprendizado acontecendo antes que se chegue ao brinquedo. 

O bebê desde que nasce brinca, seu primeiro grande brinquedo é seu próprio corpo. Ele brinca através de seus sentidos, descobre seu próprio corpo e utilizando seu corpo descobre o outro. A criança desde antes do nascimento já mostra sua necessidade em brincar. Quando a criança vê uma bola, ela percebe muitas outras coisas além da bola, através da interação de sua mão com a bola ela vê que possui um corpo, um braço, uma mão e dedos, possui a força necessária para direcionar sua mão até a bola, controle para segurar a bola, intenção para jogar e planejar onde quer acertar com aquela bola. Através desse pequeno experimento científico, que ela mesma faz, ela consegue conhecer a si mesma e seu corpo. Depois ainda poderá observar os aspectos em si da própria bola, enquanto objeto redondo, maleável, etc. (Série – O começo da vida). 

O brincar é encantador, o adulto precisa se encantar para brincar. 

Os pais e adultos ao redor da criança podem ajudá-la promovendo essa experiência do brincar, encorajando-a a criar e inventar coisas novas. Talvez o primeiro passo a tomar seria voltar a olhar o mundo com os olhos da criança. Onde a chuva não é apenas uma situação ruim, que deixará alguém molhado ou doente, mas como um fenômeno revolucionário da natureza, pois a água que estava na terra evaporou e se transformou em nuvens, voltando para a terra em forma de água, com o objetivo de hidratar as plantas e seres vivos. Ou ao observar uma fruta, observar toda a história que envolve essa fruta, de forma inteira, considerando sua casca, suas sementes, de que árvore ela veio, como ela se tornou uma árvore. Esses fenômenos são encantadores para a criança, e proporcionam que ela e o adulto vivenciem uma experiência de única. 

Apenas uma experiência social viva, entre pessoas de verdade, promove o tipo certo de informação no tempo certo do desenvolvimento da criança. 

Alline é graduada em Psicologia, especialista em Psicologia Clínica Hospitalar e há oito anos pratica a psicologia com crianças, adolescentes e adultos através da abordagem psicodinâmica. http://redequerobrasil.com/listing/psicologa-alline-nogueira-melo/ 

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