A IDENTIDADE ÉTNICA E O ADOLESCENTE QUE MORA NA HOLANDA

Por Alline Nogueira Melo 

Independentemente da situação que trouxe o adolescente a morar na Holanda, já podemos considerar que por estar na adolescência ele viverá a construção da identidade e, como parte desse conjunto, ele desenvolverá a construção de sua identidade étnica. Nesse contexto, ele faz parte de um grupo étnico minoritário que está dentro de uma cultura maior.  

Um adolescente que nasceu no Brasil e mora na Holanda, ou o que nasceu na Holanda e é filho de pais brasileiros, ou o que é filho de um brasileiro e de alguém de outro país e moram juntos na Holanda, ou ainda todas as outras possibilidades; poderá durante a adolescência conhecer e experienciar os aspectos culturais do país em que vive e também de outros países. Ele receberá dos pais e de seu contexto social as referências culturais de ambos países. A partir disso poderá construir sua identidade étnica. 

A identidade étnica se refere a um senso de pertencer a um grupo de pessoas, a um povo e a um ambiente específico. É a identificação e aceitação em um grupo com culturas e heranças compartilhadas, nesse processo o sujeito aprenderá os costumes especiais da cultura e tradição de seu grupo (Kail, 2004; K van Es, 2018). 

A construção da identidade étnica segue um caminho formado por três momentos: 

Início da adolescência – a questão cultural ainda não parece ser tão essencial e importante para o adolescente, talvez ele nem se questione sobre quais são suas raízes étnicas.  

Segunda fase – ele começa a explorar as características e aspectos de sua herança cultural. Questiona, estuda, investiga e se mostra interessado em conhecer as referências culturais ao seu redor. Solicita aos pais informações sobre seus familiares. As histórias, fotos e visitas se tornam mais interessantes, formando um processo de investigação. Esse é um momento que necessita tempo, talvez alguns anos.  

Terceira fase – o adolescente está mais velho, ele teve mais oportunidades e tempo para explorar. E depois de avaliar e considerar as referências culturais disponíveis, ele consegue reunir aspectos suficientes para construir sua identidade étnica, ele possui sua própria referência cultural (Kail, 2004). 

Ainda que o tempo de processamento seja maior, essa tende a ser uma experiência saudável. 

As pessoas que fazem parte das minorias culturais ou que nasceram em lugares diferentes dos que se desenvolvem, podem levar mais tempo para construir sua identidade étnica quando comparadas às pessoas que nasceram e se desenvolveram em um mesmo lugar. Isso ocorre em consequência da maior quantidade de referências culturais que recebem para investigar e experienciar. São diversas raízes históricas, papéis de gêneros, expectativas dos colegas, aspirações vocacionais, crenças religiosas e valores políticos das culturas que encontram e convivem (Berger, 2001). 

É saudável que a identificação étnica seja formada por mais de uma referência cultural. 

Cada pessoa não carrega necessariamente uma única e rígida identidade étnica, mas múltiplas referências culturais que existem juntas. A quantidade de referências culturais, a importância de cada uma delas e a forma como convivem entre si, definem se a construção da identidade étnica vai acontecer de forma saudável. 

Em alguns momentos vemos no adolescente que um aspecto de sua identidade étnica aparece de forma mais evidente do que outro. Nesse caso, ele poderá sentir afinidade com o jeito de pensar e conceitos de uma referência cultural, e a forma de agir e executar tarefas de outra referência. Assim como sobre os aspectos relacionados à alimentação, vestuário, relação com as pessoas e a natureza. 

As referências culturais se somam e não competem entre si   

Quando as diversas referências culturais com as quais o adolescente se relaciona são percebidas e apresentadas a ele de forma complementar, convivendo de forma harmônica, o bem-estar psicológico e emocional do adolescente é favorecido. Diferente de quando existe o julgamento de qual seria a melhor referência cultural para ele se identificar, onde uma cultura é julgada como melhor em detrimento de outra. 

Estereótipos 

As pessoas recebem estereótipos de cultura e ao mesmo tempo implantam estereótipos em sua própria cultura. Caso alguém não se enquadre àquele estereótipo, então ele não faz parte daquela cultura. Muitas vezes são necessárias décadas para desconstruir algum tipo de estereótipo estabelecido. 

As escolhas que serão feitas ao longo da construção da identidade como um todo enfrentarão as barreiras impostas pelos estereótipos estabelecidos na cultura. Por exemplo, a escolha de amizades, parceiros ou a escolha profissional do adolescente poderá ser bem aceita ou não, dependendo de como a comunidade cultural em que ele se sente incluso enxerga essa escolha. 

No processo da identidade étnica, a tentativa de responder questões como “quem eu sou, de onde eu vim, qual a minha cultura e minha identidade”, não terá apenas uma única resposta e uma definição rígida seguindo algum estereótipo pré-estabelecido. Na verdade, é um conjunto de identificações, e terá a tendência de ser algo muito além do que apenas a definição de onde ele nasceu. 

Nós enquanto contexto social do adolescente, podemos dificultar a formação de sua identidade étnica quando propomos que ele defina uma identidade única e de forma rígida, excluindo todas as outras referências que ele possui. O ser humano é algo tão complexo, tão elaborado e ilimitado, que não há um único termo ou definição rígida que determine quem ele é.  

Alline é graduada em Psicologia, especialista em Psicologia Clínica Hospitalar e há oito anos pratica a psicologia com crianças, adolescentes e adultos através da abordagem psicodinâmica. http://redequerobrasil.com/listing/psicologa-alline-nogueira-melo/ 

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