O DRAMA DOS DOIS ANOS: COMO PODEMOS AJUDAR? – PARTE 2

Por Alline Nogueira Melo 

 

Assim como os pais e os cuidadores da criança foram seus mediadores em todo o desenvolvimento até o momento, ensinando-a a comer sozinha, a andar, suas primeiras palavras e tudo o que está incluso nesse mundo da criança, também serão os mediadores no desenvolvimento emocional. Ajudando a criança a compreender, nomear, expressar e regular as emoções que sente.  

 

O que a criança espera dos pais cuidadores 

 

Em algumas situações, as crises de choro e gritos têm uma função interessante, de testar se os adultos ao redor da criança são capazes de suportar as emoções que ela está enfrentando. Lembrando de forma simples as ideias de Winnicott, nessa situação o adulto precisaria sobreviver à criança. Sobreviver no sentido de mostrar-se calmo durante a situação de crise e continuar disponível para ela, possibilitando que a criança enxergue uma esperança para o sofrimento dela. 

 

As crianças utilizam os adultos ao seu redor como referência social, esse termo se refere à quando a criança está em uma situação desconhecida e busca no comportamento e expressões dos pais e cuidadores alguns indícios de como interpretar o que está acontecendo com ela.  

 

As crianças confiam nas emoções dos pais para ajudá-los a regular seu próprio comportamento. 

 

Quando a criança tem um brinquedo novo e os pais demonstram o quanto o acham interessante, ela tem a tendência de se interessar mais por esse brinquedo do que por outro. Assim como quando ela vê um cachorro desconhecido se aproximando dela, primeiro observa a reação do adulto por perto e com isso determina sua própria reação, se irá afastar-se do cachorro por medo ou se começa a brincar com ele. De forma simples, podemos dizer que ela copia o comportamento do adulto. 

 

Como no exemplo do artigo anterior, a criança chora e grita para comunicar que está sentindo algo que não compreende: a raiva por perceber-se incapaz de desenhar seu personagem favorito. Afinal, ela já consegue andar, correr, pular, cantar, mas não consegue desenhar como gostaria, isso é algo inaceitável para ela. Nós conseguimos entender o que está acontecendo com ela, mas ela ainda não sabe o que é essa emoção e muito menos como lidar com ela.   

 

A cultura no desenvolvimento infantil 

 

As emoções e as formas de expressá-las podem ser similares para todas as crianças da mesma idade, mas apresentam características individuais em como são vividas. Quando falamos sobre o desenvolvimento infantil existem muitos fatores relacionados entre si 

 

Os pais e o ambiente ao redor da criança apresentam as referências culturais e os aspectos do mundo para ela. Lembrando do ambiente cultural em que nós brasileiros na Holanda vivemos, trazemos para a criança referências culturais diversas que contribuem para seu desenvolvimento. Ainda que alguns aspectos sejam comuns a todas as crianças do mundo, é importante lembrar que cada uma sempre terá uma dinâmica particular e não existe uma regra única e pré-estabelecida para todas. 


 

Algumas coisas que podemos fazer… 

 

  • Nomear emoções 

Podemos expressar em palavras a emoção que a criança está sentindo, valorizando e demonstrando que essa emoção é algo real e importante. Ela sentirá que é ouvida e vista pelo outro trazendo-lhe segurança 

 

  • Poder de escolha 

Dentro de um mundo em que ela precisa seguir tantos limites e controles, sempre existirá alguma pequena situação em que ela terá a oportunidade de fazer uma escolha independente e isso satisfaz de forma saudável o desejo dela de ter o domínio da situação. Podemos apresentar pequenas situações variadas na rotina diária em que ela possa fazer escolhas de forma independente, por exemplo escolher o pijama ou a roupa do dia. 

 

  • Adultos também choram 

No dia a dia, podemos falar brevemente e em uma linguagem própria para a idade da criança, sobre situações em que sentimos as mesmas emoções que ela e o quanto isso também foi difícil para nós. Ela perceberá que se um adulto que ela tanto admira conseguiu passar por isso sem as crises de choro desproporcionais, ela também poderá conseguir. 

 

  • Aprendendo com exemplos 

Quando a criança sente a emoção intensa, ela tem a crise para comunicar essa emoção ao outro. Geralmente estamos tão cansados que entramos na emoção da criança e com isso começamos a sentir o mesmo descontrole que ela. Entramos em uma posição de disputa com a criança e nessa situação sempre iremos perder. Quando conseguimos nos posicionar como fora da situação, não entrando na emoção da criança, conseguimos nos manter calmos e encontrar uma solução mais apropriada para ela naquele momento, assim ela consegue nos usar como modelo e copiar nosso comportamento. 

 

Que atire a primeira pedra quem nunca teve dois anos de idade 

 

Todos nós passamos por essa fase dos dois anos, em que experienciamos e expressamos tantas emoções diferentes, e em que aprendemos a reagir e lidar com elas.  

 

E quando adultos percebemos que estamos vivendo sensações como ansiedade, tristeza, raiva e irritabilidade, de forma persistente e recorrente, podemos supor que isso está relacionado ao nosso desenvolvimento emocional, que pode ter sido construído de forma frágil. Assim como, o resultado do nosso desenvolvimento emocional construído de forma saudável, nos possibilita a formar relações íntimas saudáveis e evitar o isolamento social. 

 

O desenvolvimento emocional começa na infância e se prolonga por toda a vida, então sempre teremos a chance de cuidar e aprimorar nossas formas de lidar com as emoções. 

 

Alline é graduada em Psicologia, especialista em Psicologia Clinica Hospitalar e há oito anos pratica a psicologia com crianças, adolecentes e adultos através da abordagem psicodinâmica. http://redequerobrasil.com/listing/psicologa-alline-nogueira-melo/ 
 

 

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Comentários

  • Estela
    11/09/2019 at 15:07

    Obrigada Alline! Mesmo que nao tenho criança de 2 anos, acho práticos as suas descrições. Vou estar aguardando atenta quando vc tiver dicas para “o drama dos 4 anos” 😀

    • Alline
      18/09/2019 at 10:38

      Muito obrigada pela atenção Estela! Sua sugestão está anotada para os próximos artigos!

  • Elaine
    05/09/2019 at 11:45

    Artigo claro e muito útil.
    Parabéns!

  • Agatha Kuiper
    21/08/2019 at 10:51

    Parabéns Alline pelo artigo. Com certeza vai ajudar muitas mães atuais e futuras a entender melhor essa fase.

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